A Tradição Alimentar


Comidas e bebidas em risco de desaparecimento


Nos últimos tempos, tem-se verificado uma salutar preocupação de salvaguardar o património construído e natural, contrariando atitudes de desinteresse e de destruição do passado, por não se lhe dar qualquer importância. A recente atitude de respeito e de interesse pelo património também tem sido posta em prática em Portimão. Recentemente, levou-se a cabo um arranjo urbanístico junto ao rio, de que resultou uma zona pedonal muito agradável de se percorrer a pé, com o rio ali ao nosso lado. Em Alvor, a intervenção na zona da ribeira proporcionou um espaço de lazer, em contacto com a ria. As obras de recuperação de edifícios históricos de valor patrimonial têm tornado possível a conservação e valorização do passado.

O peixe fresco, uma das riquezas da região, é considerado um alimento dos melhores para a saúde. É acompanhado, quase sempre, de uma salada de tomate temperada com azeite e vinagre e tornada mais saborosa com orégãos. O peixe e os moluscos foram utilizados também para enriquecer o paladar de comidas à base de produtos da terra, aumentando-lhes o sabor e o valor nutritivo, como acontece com alguns pratos de arroz e de papas de milho.

As ervilhas e as favas, produtos outrora abundantes eram consumidos frescos em abundância no tempo da sua colheita, com todas as vantagens para o organismo. Os frutos secos, figos, amêndoas e alfarrobas, faziam parte da alimentação nas alturas em que a natureza não proporcionava frutos frescos ou eram ingredientes da doçaria regional. 

Quem, na actualidade percorrer o interior do Município de Portimão depara com inúmeras casas rurais em ruínas e desabitadas. Lugarejos outrora animados por uma população activa que tirava o seu sustento da terra foram abandonados pelas razões atrás indicadas. Esta fuga do campo para a cidade empobrece a região, obriga formas de alimentação que nada têm a ver com o meio em que se vive e com uma vida saudável. Antigamente, o trabalho na terra era muito duro e pouco compensador, mas se conseguissem criar comodidades e recompensas económicas para os que labutam nos campos, o fenómeno da desertificação rural não existiria.

A partir da década de setenta, o turismo é a grande actividade económica de Portimão, ainda que a  superfície agrícola útil, não muito grande, representa cerca de 60% do seu território. Desprezá-la é ignorar uma riqueza natural, que não pode ficar ao abandono, já que os recursos naturais não são ilimitados.

Nos mesmos campos, cultivam-se agora muito menos frutos secos e verdes, o mesmo se verificando com os produtos hortícolas. Em contrapartida, e isso é um ponto positivo, os citrinos ocupam uma área muito maior do que antigamente. Os inquéritos feitos a restauradores mostraram que as laranjas eram um produto muito procurado nos restaurantes, pela sua boa qualidade. Em todo o caso, é vantajoso manter um equilíbrio, porque os outros frutos, sejam eles frescos ou secos também têm lugar no mercado e na gastronomia.

Sabe-se que o pão é a base da alimentação tradicional no Algarve e, segundo as estatísticas, a produção cerealífera é insignificante no concelho, enquanto até há alguns anos atrás ocupava uma área mais significativa, ainda que sempre inferior às necessidades do consumo. A qualidade das terras e do clima não encorajam os produtores ao seu cultivo, pelo que se terá de recorrer sempre a importação de trigo. Isso não significa que não se preste atenção ao fabrico de pão. É muito diferente comer-se o pão industrial, muito incaracterístico do que saborear o que se faz ao modo tradicional, em forno de lenha. Tivemos oportunidade de constatar quanto é apreciado pelos naturais e turistas, embora seja difícil, por vezes, encontrá-lo. Os esforços de alguns em continuar a produzi-lo têm esbarrado com obstáculos de toda a ordem, por vezes em nome das leis comunitárias. Importa respeitar as normas de higiene, sem, no entanto, impedir o fabrico e comercialização de um produto tão apreciado.

Em quase todos os restaurantes, as azeitonas são colocadas na mesa como uma das entradas. Segundo dados estatísticos de 1998, o olival ocupava 9,1% da  superfície não agrícola útil e essa percentagem diminuiu de então para cá com o progressivo abandono dos campos. Não vamos ao ponto de sonhar com os velhos lagares de azeite que existiam na zona, porque já não são rentáveis, mas não se deve descurar o olival por se produzirem azeitonas de boa qualidade que podem ser utilizadas no consumo interno, com as várias conservas. Trata-se de uma árvore característica da região, o que levou a utilizá-la nalguns arranjos urbanísticos para ornamentar ruas e praças. Não podemos limitar-nos a isso, é importante cultivar azeitonas em quantidade suficiente para a mesa dos particulares e dos restaurantes.

Entre os naturais é dado assente que a batata doce cultivada em Aljezur é a de melhor qualidade, no entanto, também se cultiva noutra zonas, em menor escala. Se houvesse maior quantidade deste produto típico no mercado seria mais utilizada, à semelhança do que acontecia em tempos idos. Afirma-se, também,  que o melhor medronho é o de Monchique, esquecendo-se que uma parte do território de Portimão confina com o desse território e nessa zona também há condições para a boa produção daquele tipo de aguardente.

São louváveis os esforços de se reiniciarem plantações de árvores de frutos, figueiras, alfarrobeiras e, em menor escala, de amendoeiras. Todas essas são árvores bem adaptadas ao clima e aos solos, proporcionam frutos de boa qualidade. Mesmo no que diz respeito a produtos hortícolas, temos testemunhos do seu sabor muito melhor, quando comparados com produtos de outras regiões, pelo facto de, no Algarve haver mais sol. Estão neste caso os tomates, com os quais se obtêm saladas muito saborosas.

As ervas aromáticas têm uma grande utilização na gastronomia do Algarve. Se os produtores se mentalizarem que há uma tendência para maior saída dos pratos tradicionais, compreenderão que vale a pena cultivar os produtos que entram na sua confecção, porque aumentará a sua procura no mercado.